segunda-feira, 30 de junho de 2008

POESIA EM MOVIMENTO...

Caricatura de G.Junqueiro

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REGRESSO AO LAR

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Ai, há quantos anos que eu parti chorando

deste meu saudoso, carinhoso lar!...

Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!...

Minha velha ama, que me estás fitando,

canta-me cantigas para me eu lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida...

Só achei enganos, decepções, pesar...

Oh, a ingénua alma tão desiludida!...

Minha velha ama, com a voz dorida.

canta-me cantigas de me adormentar!...

Trago de amargura o coração desfeito...

Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!

Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...

Minha velha ama, que me deste o peito,

canta-me cantigas para me embalar!...

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho

pedrarias de astros, gemas de luar...

Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...

Minha velha ama, sou um pobrezinho...

Canta-me cantigas de fazer chorar!...

Como antigamente, no regaço amado

(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!

Ai o teu menino como está mudado!

Minha velha ama, como está mudado!

Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

Canta-me cantigas manso, muito manso...

tristes, muito tristes, como à noite o mar...

Canta-me cantigas para ver se alcanço

que a minha alma durma, tenha paz, descanso,

quando a morte, em breve, ma vier buscar!

*

Os Simples - Guerra Junqueiro

RECORDAÇÕES... POÉTICAS

Meu País Desgraçado
*
Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas ...
Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?
Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.
E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.
Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!
Povo anêmico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!
*
Sebastião da Gama

sábado, 28 de junho de 2008

FLORES...


Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr-do-sol,
Eu vou falar com elas em segredo ...

E falo-lhes d'amores e de ilusões,
Choro e rio com elas, mansamente...
Pouco a pouco o perfume do outrora
Flutua em volta delas, docemente ...

Pelo copinho de cristal e prata
Bebo uma saudade estranha e vaga,
Uma saudade imensa e infinita
Que, triste, me deslumbra e m'embriaga

O espelho de prata cinzelada,
A doce oferta que eu amava tanto,
Que reflectia outrora tantos risos,
E agora reflecte apenas pranto,

E o colar de pedras preciosas,
De lágrimas e estrelas constelado,
Resumem em seus brilhos o que tenho
De vago e de feliz no meu passado...

Mas de todas as prendas, a mais rara,
Aquela que mals fala à fantasia,
São as folhas daquela rosa branca
Que a meus pés desfolhaste, aquele dia...

Florbela Espanca

sexta-feira, 27 de junho de 2008

PENSAMENTO...

NA SINGELEZA DE UMA FLÔR, VEMOS A SUA BELEZA EFUSIANTE...
...QUE OFUSCA QUEM É VAIDOSO, PREMEIA QUEM É SIMPLES...
...MAS SECA E MORRE, QUANDO LHE FALTAM CUIDADOS!
ASSIM É O HOMEM DE ONTEM, DE HOJE E DE SEMPRE!
*
* Victor Elias*

A CHUVA CHOVE...



A chuva chove mansamente… como um sono
que tranquilize, pacifique, resserene…
A chuva chove mansamente… Que abandono!
A chuva é a música de um poema de Verlaine…

E vem-me o sonho de uma véspera solene,
em certo paço, já sem data e já sem dono…
Véspera triste como a noite, que envenene
a alma, evocando coisas líricas de outono…

…Num velho paço, muito longe, em terra estranha,
com muita névoa pelos ombros da montanha…
Paço de imensos corredores espectrais,
onde murmurem, velhos órgãos, árias mortas,

enquanto o vento, estrepitando pelas portas,
revira infólios, cancioneiros e missais…


Cecília Meireles

SAUDADE...

quinta-feira, 26 de junho de 2008

MADRIGAL

Sou de ti enamorado
minha cidade singela...
...mas namoras o Rio Lis,
ou talvez o lindo Castelo?...
...vê que até o povo diz:
"Entre todos... o mais belo!"
Minha cidade graciosa,
que levou el-Rei D. Dinis
a escolher-te por morada,
mandou plantar um Pinhal
para que nos dias de Estio
passeasse a sua amada,
essa Rainha Santa e pura,
que te deu toda a candura...
...quando em ti descansava!
*
Poema de Victor Manuel Elias

sexta-feira, 20 de junho de 2008

ESTE SOL QUE ME AQUECE...

...
... é uma bola de fogo, tão quente,
que nos aquece toda a terra...
... é uma tremenda fonte de vida
que estará sempre presente,
em tempos de paz... ou de guerra!
É este sol que me aquece
mais que a bola de fogo bonita,
que ilumina todo o universo
desde que nasce ao seu ocaso...
... e aquece de forma catita
- o que posso dizer em verso? -
um mundo que todo se agita
num preito a este sol dourado...
...que teima em fazer-se sentir
um pouco por todo o lado...
...como irá fazer no porvir.
Bendito serás, sol de Verão,
que nos convidas à calma...
...és dos pobres a consolação,
porque lhes aqueces a alma!
Bendito sejas, sol de Outono,
desde o Guadiana ao Lima...
...não provocas no homem sono
porque é o tempo de vindima!
Bendito serás, Sol de Inverno
pois confortas o meu coração...
...e esse teu título será eterno:
- Fostes a um Festival da Canção
Mas é a chegada da Primavera
que me leva a te bendizer:
- Jamais o mundo será o que era
sem haver flores a nascer!
...
Victor Manuel Elias

domingo, 15 de junho de 2008

NASCE O SOL NO ESTIO...


Além do horizonte, novamente...
...as boas-vindas ao sol nascido...
...por certo, precocemente,
mas no Verão só faz sentido
verem-se raios maravilhosos,
de um calor que tudo aquece.
mesmo a pele aos ociosos,
que teimam em se queimar
sem usar cuidados famosos
que alguém tenta apregoar:
"Proteja-se e proteja os seus
do calor vindo dos céus!"
"Se não usa um protector...
vai sentir escaldão... e dôr!"
E nos passeios à beira mar,
as núvens longe, no horizonte...
...dão vontade de nadar...
...as ondas batendo na fronte!
Óh, sol dourado, madrugador,
que aqueces montes e vales,
és do Estio um eterno valor...
...e a causa de bens ou de males,
para quem omita cuidados
menosprezando o teu poder...
...depois...
... só vendo os campos queimados
sentirão a alma a sofrer!
É o sol quente do Estio
que aquece o ambiente...
...e fá-lo com tanto brio
que "tostará" toda a gente
ansiosa por se queimar...
...mas o bronze deixa contente
quem gosta de se mostrar!
...
Victor Manuel Elias

quinta-feira, 12 de junho de 2008

QUADRAS DEDICADAS AO DIA SANTO ANTÓNIO!...


Santo António de Lisboa
Era um grande pregador
Mas é por ser Santo António
Que as moças lhe têm amor
MMMM
No baile em que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem estar.
MMMMM
A caixa que não tem tampa
Fica sempre destapada
Dá-me um sorriso dos teus
Porque não quero mais nada.
(Fernando Pessoa)

LÁ LONGE, SOBRE AS MONTANHAS...

vejo pássaros esvoaçando...
...asas ao vento, airosos,
olhando as núvens nos céus,
tingidas de cores mil...
de um negro de tempestade
ou com a limpidez do anil!
Vejo as águas no regato,
murmurejando ao passar
entre as fragas e mil pedras
que sempre teimam em afagar!
Vejo o açude, bucólico,
com uma linda cachoeira
de águas que caiem do alto ...
...mil árvores com um matiz
entre o verde e o castanho...
...e também muito amarelo...
...cujas folhas esvoaçam,
em alegres danças, sem parança...
e quem tenha sentindo o vento,
ter-se-á apercebido...
...que a ponte vai balançando,
as neves se vão desfazendo,
o vento vai soprando, ligeiro,
e os pássaros, lá no alto,
abrindo as asas ao vento,
respiram em liberdade
os frutos de tal momento!
...
Victor Elias

domingo, 8 de junho de 2008

MOMENTO POÉTICO

---
.....
Teixeira de Pascoais

POEMA INÉDITO
...

Feita de sol é a carne que nos veste

Os ossos, que são feitos de luar.

E a nossa alma é sombra

A sonhar e a pensar, conforme é dia

Ou noite, pois em nosso pensamento

Esplende o sol.

Mas ao luar é que se expande

O nosso dom fantástico, esse voo

Sem fim do nosso ser

Que ultrapassa as estrelas

E alcança além do espaço a eternidade.

E o infinito, além do espaço,

E Deus, além dos deuses.

nnn

In VI Volume das Obras Completas

sexta-feira, 6 de junho de 2008

NÃO TE AMO...!


Amo as noites de luar
amo a lua, o sol, o céu.
amo as estrelas e o mar;
Mas não amo o rosto teu.
...
Amo das aves o canto,
dos bosqueAms o sussurrar,
na voz da brisa acho encanto;
Mas não amo o teu cantar.
...
Amo a cor da branca rosa
entre as flores bela flor,
da violeta a cor mimosa;
Mas não amo a tua cor.
...
Amo o brilho das estrelas
que fulguram lá nos céus,
o da lua em noites belas;
Mas não o dos olhos teus.
...
Amo toda a natureza,
tudo nela me sorri,
em tudo encontro beleza;
Mas não sinto amor por ti.
mmm
...Júlio Dinis

segunda-feira, 2 de junho de 2008

FLORES VARIADAS

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Hoje, Senhor, vi, contemplei
flores tão variadas:
na cor, na forma, no tamanho.
l
Reflexos da beleza divina,
dons da tua bondade providente,
sinais do teu amor.
l
E lembrei-me, Senhor, daquele santo,
que chorava ao contemplar uma flor:
ela falava-lhe tanto de Ti!...
j
Que eu saiba Ver-Te
na beleza das flores.
Que elas me ajudem a dizer-Te
um obrigado por tanto amor.
Que eu aprenda com as flores
a louvar sem cessar.
Que eu, como as flores
alegre os outros
e seja paz e harmonia.
Que eu, Senhor, saiba semear
a vida dos outros com flores!

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Dário Pedroso