sábado, 8 de fevereiro de 2014

RESIGNAÇÃO E DETERMINAÇÃO

O mundo, quando recebeu a notícia da resignação do Papa Bento XVI, terá ficado perplexo de tal modo que se terá interrogado:
"Se este homem, um representante de Cristo neste vale de lágrimas, se sente impotente para continuar o seu múnus apostólico sentado na Cadeira de São Pedro... que nos estará reservado a nós, pobres marionetas manipuláveis pelos desígnios de Deus a nosso respeito, pois Ele tudo pode, tudo controla... mas não conseguiu controlar o medo do Papa demissionário - agora emérito -, que não teve forças para levar a sua Cruz até ao cimo do seu Calvário?"
Não é possível saber-se as motivações de Joseph Ratzinger para tomar a decisão de abandonar a barca de Pedro, mas a sua figura já era a de um Homem que estava em sofrimento, que prefigurava alguém derrotado não se sabe porquê nem por quem! Sendo alguém contemplativo, virado para as coisas do Alto, surpreendeu que não tivesse sabido ler os sinais que lhe enviava o Altíssimo, pois se ele 'falava' frequentemente com o seu Mestre e Senhor, deveria conseguir interpretar as parábolas deste, porque quando Cristo diz ser o Reino dos Céus semelhante a uma grande seara, que tem falta de trabalhadores, também se refere a ele, Papa, pois ele deveria ser o primeiro trabalhador dessa seara... e um trabalhador satisfeito com o seu Senhor não abandona o trabalho a meio.
Quando se diz "Deus providenciará!" aludindo à confiança que nos é necessária para prosseguir o caminho que leve à Redenção do género humano, resgatado pelo sacrifício maior de Cristo na Cruz, onde verteu o Seu Sangue em resgate da Humanidade, é necessário acrescentar-se que Ele não nos impõe condição maior do que o Mandamento do Amor: "AMAI.-VOS COMO COMO EU VOS AMEI" - disse Jesus.
E a prova de que Ele está atento às necessidades da Sua Igreja, do Seu Povo Santo e Sacerdotal, mandou  outro Francisco, como outrora se ouvia contar:
" E São Francisco, esperando no Senhor Jesus Cristo que domina os espíritos de todo ser vivo, desprotegido de escudo ou capacete, mas munindo-se com o sinal da santa cruz, saiu pela porta com um companheiro, lançando toda a sua confiança no Senhor, que faz aquele que nele crê andar sem nenhuma lesão sobre a serpente e a víbora e calcar aos pés não só o lobo, mas até mesmo o leão e o dragão (cf. Sl 90,13). E assim Francisco, o fidelíssimo cavaleiro de Cristo, não cingido de couraça nem com espada, não levando às costas arco nem arma bélica, mas munido com o escudo da santíssima fé e com o sinal-da-cruz, começou a percorrer com constância o caminho [que era] duvidoso para os outros. E, estando muitos a observar dos lugares a que haviam subido, eis que aquele terrível lobo correu contra São Francisco com a boca totalmente aberta. Contra ele São Francisco interpôs o sinal-da-cruz e, pela virtude divina, deteve o lobo longe tanto de si quanto do companheiro, reteve-lhe a corrida e fechou-lhe a truculenta boca aberta. E finalmente chamando-o, disse-lhe: “Vem cá, irmão lobo, e da parte de Cristo te ordeno que não faças mal nem a mim nem a qualquer outro”.
O Jesuíta Argentino Cardeal Jorge Mário Bergolio, de 76 anos, que se tornou no primeiro Papa oriundo das Américas, era Arcebispo de Buenos Aires, um pastor simples e humilde que se dedicou por inteiro à sua diocese, sendo amado por todos pelo seu zelo pastoral e pela bondade amplamente manifestada.
A sua figura bondosa e de sorriso cativante, faz lembrar o Papa João Paulo I, enquanto o porte físico recorda João XXIII.
Pela forma como tem exposto a sua doutrina, pelo amor pelos pobres e desfavorecidos, pela reconciliação que propõe para todos os que foram colocados em situação de exclusão, como os filhos de pais não casados, os divorciados, os membros de outras confissões religiosas, cristãs ou não, a par de outras mudanças que tem protagonizado, dão aos crentes e não crentes a certeza de que não é o facto de haver agora dois Papas que as coisas vão mudar, pois um resignava-se a ver a Igreja a ser coberta pelo nevoeiro da apostasia, da descrença, do abandono do culto, da fé periclitante e sem expressão que tomou conta de alguma juventude, enquanto o outro está a procurar reforçar os alicerces de uma Igreja verdadeiramente virada para Cristo, com Cristo e em Cristo!

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

PARA QUÊ O 25 DE NOVEMBRO?

Se alguém me viesse dizer que o 25 de Novembro de 1975 seria escusado, dado o estado de coisas que os ditadores da democracia à portuguesa resolveram implementar no País, eu estaria pronto a concordar com esse alguém... se não soubesse bem o tipo de pessoas povoam este que foi um "jardim da Europa à beira mar plantado", pois são dadas a reivindicar, protestar, partir tudo, destruir a esmo, barafustar quanto baste e tudo aquilo que lhe está inerente, mas na hora de votar... 
Sabe-se que o 25 de Novembro, que em breve se comemora, foi uma tentativa que alguns patriotas houveram por bem fazer para ser reposta a verdadeira essência do 25 de Abril, pois estavam a acontecer desvios ao espírito da Revolução dos Cravos... que hoje é, por um lado,  uma autêntica utopia nacional, nascida na mente de alguns militares esquerdistas  que pretendiam adquirir algum protagonismo histórico, aliciando,  para dar credibilidade ao seu plano, muitos Militares que acreditaram na pureza daquilo que lhes foi apresentado como uma Revolução Democrática que pretendia devolver ao Povo a Liberdade.
E a liberdade apareceu, ainda que não tenha sido estabelecido o limite dessa mesma liberdade, que quando demasiada se pode vir a tornar num pesadelo.
 Até uma simples canção surgida nos tempos de Abril se tem tornado numa arma de arremesso... diria antes, numa falta de educação, de civismo de quem a canta.

Será que, como consequência dessa grande liberdade que Abril trouxe a Portugal, não teremos de lamentar, um dia destes, a liberdade concedida a um qualquer 'inofensivo' cidadão descontente com as liberdades democráticas, o leve a fazer a reposição do filme "11 de Setembro", utilizando um dos aviões da TAP para assustar o Palácio de São Bento, as Torres das Amoreiras ou as do Parque das Nações...
É apenas para que se pense nesta hipótese, que poderá ser remota, é certamente utópica mas... também o Old Trade Center  de Nova Yorque era impensável... até ao dia 11 de Setembro.  
 
Sei que não podemos estar sempre a pensar que os políticos são pessoas detentoras da verdade, porque isso é passar-mos a nós próprios um atestado de imbecilidade!
A Doutora Manuela Ferreira Leite, aquela feiosa do PSD que já foi ministra de tudo neste País - não sei se foi Ministra Extraordinária da Comunhão, desconfiando que não só porque ela nunca deu nada a ninguém - disse um dia que seria útil suspender-se a Democracia durante algum tempo. Procurei onde teria ela tido aquela visão, que tanto poderia provir de uma mulherzinha de virtude, de um bolinho da sorte chinês ou de um qualquer esquema informático que ela tenha descoberto no seu 'MAGALHÃES' pessoal... e não é que é verdade? ELA TEM UM PROGRAMA PARA DESLIGAR A DEMOCRACIA E JÁ O COLOCOU À DISPOSIÇÃO DOS PARTIDOS DO GOVERNO!
Vamos lá a vêr se o utilizam bem... ou então faz-se outro 25 de Novembro, para vêr se o País entra nos eixos ou não!
Já agora: Para que serviu o 25 de Abril? Sabem? E o 25 de Novembro?

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

SER VETERANO MILITAR EM PORTUGAL




"...É graças aos soldados, e não aos sacerdotes, que podemos ter a religião que desejamos.
É graças aos soldados, e não aos jornalistas, que temos liberdade de imprensa. 
É graças aos soldados, e não aos poetas, que podemos falar em público.
É graças aos soldados, e não aos professores, que existe liberdade de ensino. 
É graças aos soldados, e não aos advogados, que existe o direito a um julgamento justo. 
É graças aos soldados, e não aos políticos, que podemos votar..."
 


BARACK OBAMA no MEMORIAL DAY (durante a cerimônia do Dia do Veterano) há alguns dias. 
Dedicado àqueles que perguntam: “Para que servem os militares?”

.
Centenas de milhares de soldados portugueses combateram em nome do nosso país, desde o início do século XX até à actualidade.
Já não há sobreviventes do Corpo Expedicionário Português, enviado para a Flandres durante a 1ª Guerra Mundial, nem das forças que, nesse mesmo conflito, lutaram em África. O último veterano dessa guerra, José Maria Baptista, morreu no dia 14 de Dezembro de 2002.
Depois daquele conflito, as guerras foram, durante décadas, poupadas aos Portugueses,  mas  a partir de finais dos anos 1950, os Soldados e outras forças militarizadas voltaram a encontrar-se em situações de combate aberto, primeiro naquele que era o Ultramar português, depois em múltiplos teatros de guerra, em associação com forças armadas dos países da NATO e da União Europeia e em missões organizadas sob a égide das Nações Unidas. Independentemente das opiniões de cada um, para o Estado português todos estes soldados foram Combatentes, são hoje Veteranos ou Antigos Combatentes, mas deveria ser, sobretudo,  iguais. Não deveria haver, entre eles, diferenças de género, de missão ou de função. São Veteranos e foram soldados de Portugal. É assim que deveria ser, mas há muitas coisas que nos afastam das palavras sabias de Obama, como seja a dignidade conferida pelo estatuto de antigo Combatente, de Veterano de Guerra que não desejou ser, mas que as contingências e o martírio porque estavam a passar os nossos compatriotas que haviam escolhido labutar em terras de África, gritou mais alto!
Não foram, de modo algum, levados pelos vencimentos chorudos que hoje se pagam a um militar... para ir passar uns tempos no Kosovo, no Afeganistão, na Croácia ou em qualquer outro local onde seja necessário o seu braço armado.
Sinais dos tempos... pois nunca se pagaram prémios de seguro às famílias dos que pereceram no então Ultramar. Talvez fosse por serem Militares de 3ª. Classe, comparativamente aos de agora, pois faziam-se transportar em navios a ameaçar ruína, que transportavam Homens como se de sardinha enlatada se tratasse, em condições infra-humanas e não em modernas aeronaves, como agora acontece!
 
Vamos reflectir nisto: As coisas mais importantes do mundo são: disciplinar e ser disciplinado, educar e ser educado,treinar e ser treinado, acatar e se acatado, respeitar para ser respeitado, passar... porque um dia será ultrapassado, conquistar... para não ser conquistado, ser o melhor... até que outro conquiste o seu lugar.
A guerra ! É uma coisa demasiada grave para ser confiada aos militares.
Georges Clémenceau
É verdade que, por vezes, os militares, exagerando da impotência relativa da inteligência, descuram servir-se dela.
Charles de Gaulle
 
 Sente-se mágoa quando vemos a forma como os Veteranos de Guerra são tratados pelos nossos governantes. Sentimos que fomos obrigados a deixar as nossas profissões, os nossos familiares, os nossos amigos, para ir para uma guerra que não escolhemos, mas nela lutámos pelo País, dando o melhor de nós próprios... mas  hoje somos esquecidos, perdemos até o direito à dignidade de morrer, porque os Hospitais não se compadecem dos Veteranos, como está provado.

domingo, 13 de outubro de 2013

MOMENTO PARA REFLEXÃO...


A broa dos velhos
Público, 04/09/2013
Por Alberto Pinto Nogueira
 
A República vive da mendicidade. É crónico. Alexandre de Gusmão, filósofo, diplomata e conselheiro de D. João V, acentuava que, depois de D. Manuel, o país era sustentado por estrangeiros.
Era o Séc. XVIII. A monarquia reinava com sumptuosidades, luxos e luxúrias.

A rondar o Séc. XX, Antero de Quental, poeta e filósofo, acordava em que Portugal se desmoronava desde o Séc. XVII. Era pedinte do exterior.

A Corte, sempre a sacar os cofres públicos, ia metendo vales para nutrir nobrezas, caçadas, festanças e por aí fora….

Uma vez mais, entrou em bancarrota. Declarou falência em 1892.

A I República herdou uma terra falida. Incumbiu-se de se autodestruir. Com lutas fratricidas e partidárias. Em muito poucos anos, desbaratou os grandes princípios democráticos e republicanos que a inspiraram.

O período posterior, de autoritarismo, traduziu uma razia deletéria sobre a Nação. Geriu a coisa pública por e a favor de elites com um só pensamento: o Estado sou eu. Retrocedia-se ao poder absoluto. A pobreza e miséria dissimulavam-se no Fado, Futebol e Fátima.

As liberdades públicas foram extintas. O Pensamento foi abolido. Triturado.

O Povo sofria a repressão e a guerra. O governo durou 40 anos! Com votos de vivos e de mortos.

A II República recuperou os princípios fundamentais de 1910, massacrados em 1928.

Superou muitos percalços, abusos e algumas atrocidades.

Acreditou-se em 1974, com o reforço constitucional de 1976, que se faria Justiça ao Povo.

Ingenuidade, logro e engano.

Os partidos políticos logo capturaram o Estado, as autarquias, as empresas públicas.

Nada aprenderam com a História. Ignoram-na. Desprezam-na.

Penhoraram a Nação.
Com desvarios e desmandos.
Obras faraónicas,
estádios de futebol,
auto-estradas pleonásticas,
institutos públicos sobrepostos e inúteis,
fundações público-privadas para gáudio de senadores,
cartões de crédito de plafond ilimitado, etc.
Delírio, esquizofrenia esbanjadora.

O país faliu de novo em 1983. Reincidiu em 2011.

O governo arrasa tudo
. Governa para a troika e obscuros mercados. Sustenta bancos. Outros negócios escuros. São o seu catecismo ideológico e político.

Ao seu Povo reservou a austeridade. Só impostos e rombos nas reformas.

As palavras "Povo” e “Cidadão” foram exterminadas do seu léxico.

Há direitos e contratos com bancos, swaps, parcerias. Sacrossantos.

Outros (com trabalhadores e velhos), mais que estabelecidos há dezenas de anos, cobertos pela Constituição e pela Lei, se lhe não servem propósitos, o governo inconstitucionaliza aquela e ilegaliza esta. Leis vigentes são as que, a cada momento, acaricia. Hoje umas, amanhã outras sobre a mesma matéria. Revoga as primeiras, cozinha as segundas a seu agrado e bel- prazer.

É um fora de lei.

Renegava a Constituição da República que jurou cumprir.
Em 2011, encomendou a um ex-banqueiro a sua revisão.
Hoje, absolve-a mas condena os juízes que, sem senso, a não interpretam a seu jeito!!!

Os empregados da troika mandam serrar as reformas e pensões. O servo cumpre.

Mete a faca na broa dos velhos.

Hoje 10, amanhã 15, depois 20%.


Até à côdea. Velhos são velhos. Desossem-se. Já estão descarnados.
Em 2014, de corte em corte (ou de facada em facada?), organizará e subsidiará, com o Orçamento do Estado, o seu funeral colectivo.

De que serviu aos velhos o governo? E seu memorando?

Alberto Pinto Nogueira é Procurador-Geral – Adjunto

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

SONHAR... AINDA É BARATO...

Sempre que se aproxima qualquer acto eleitoral, nem que seja para o clube do bairro, há sempre um estranho comportamento das pessoas envolvidas no mesmo acto, pois acontece verificarem-se branqueamentos de personalidade, falsa afabilidade, uma amizade perversamente mentirosa, na maioria dos casos, porque o que se pretende é o voto.
É aqui que costumo sonhar com aquilo que irá ser a ida às urnas... e raramente me engano naquilo que o meu cérebro adormecido congemina como futuro.
Porque passei parte da minha vida em missão de soberania em África, lógico se torna ter sonhado muitas vezes com Angola e Moçambique, sendo um dos sonhos mais enigmáticos que tive aquele em que vejo uma enorme jiboia a ser alimentada à mão por um indígena, que a vai criando gorda e viçosa, mas também terrivelmente perigosa.
Quem me poderia explicar o significado senão o futuro? A jiboia cresceu, tornou-se um troféu apetecido, mas o tratador, que lhe deu o que tinha e não tinha, manteve a sua pobreza ancestral, a sua fome de tudo, porque não será uma cobra gigante a aperceber-se do que seja dessas coisas de justiça, de liberdade, de igualdade... porque ela é que tinha de ser apaparicada e alimentada, e o escravo humano nada poderá contra o monstro que criou!
 
É nesses sonhos que o meu espírito aventureiro se diverte a conhecer novas paragens, gentes diferentes, costumes invulgares para os nossos padrões de vida. Pergunto-me, muitas vezes, qual seria a reacção dos nossos navegadores quando lançavam padrões nas novas terras a que aportavam, perante a presença dos naturais que, mesmo sem saberem como entender o que diziam os estrangeiros que haviam chegado às suas aldeias, os convidavam a partilhar da sua mesa, que era bastante frugal mas era fruto do seu bem querer para com os senhores que os visitavam.
E assim se justificam 500 anos de permanência de Portugal no mundo que descobriu, se bem que bastaram algumas horas de devaneio revolucionário para reduzir a pó a gesta dos nossos antepassados.
O poeta pergunta: VALEU A PENA? E responde: TUDO VALE A PENA... SE A ALMA NÃO É PEQUENA!
E como o sonho não pode ser escolhido a nosso belo prazer, lá vem o desprazer das eleições, desta vez para escolher quem deverá conduzir os nossos Municípios, mas o meu cérebro pensa logo em ladrões, que identifica com os políticos, e o resultado não é de molde a motivar a minha deslocação à Assembleia Eleitoral onde deveria entregar o papelinho com a minha escolha. Pelo cartaz fica tudo esclarecido, não é verdade?
O que vale é o sonhar ainda não pagar taxa de utilização, imposto ou outra coisa qualquer que as 'tróikas' deste mundo vão impondo ao nosso pobre País.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

PORTUGAL... JÁ ESTÁ A ARDER?

Ana Rita Pereira, Bombeira de 2ª Categoria em Alcabideche, faleceu na luta contra o monstro terrível do fogo que lavrou em Tondela, na Serra do Caramulo.
Esta jovem de 22 anos deixa para trás toda uma vida e ainda uma filha muito pequena. PAZ À SUA ALMA!

Todos os anos é a mesma coisa: Mal vem um pouco de sol a mais, desata a eclodir o fogo por tudo quanto é sítio, não se vendo outra coisa nos noticiários que não sejam fogos... fogos... fogos..., mais parecendo que se pretende efectivamente acabar com o que resta da floresta portuguesa... só que o preço começa a ser assustadoramente alto, pois o número de vítimas começa a preocupar, mas talvez sejam apenas as populações a sentir na carne o ferrete do medo daquilo que o fogo pode fazer.
Mal equipados, a ferramenta mais valiosa que têm à disposição é a força que lhes dá o desejo de serem úteis, sempre fiéis ao lema 'VIDA POR VIDA'. No inferno das chamas, o Bombeiro dá-se por completo ao desejo de salvar pessoas e bens, apesar de muitas vezes não ver reconhecido o sacrifício de ter de deixar tudo para ir socorrer quem deles precisa.
É pertinente aquilatar-se até que ponto é o balde o equipamento ideal para o combate aos fogos! Já se torna aflitivo pensar-se que as Autoridades governamentais não se importam muito com o que ano após ano vai destruindo o sistema florestal português, até porque não é feita uma prevenção séria, não são dados meios necessários, não se obrigam os proprietários florestais a limpar as matas, construir aceiros, limpar os pastos secos, que são pólvora autêntica e de cujas fagulhas se propagam as chamas até longe, com as consequências mais que evidentes.
Torna-se caricato o facto de agora serem pedidos meios aéreos à Força Aérea... para detectar e indicar os locais onde deflagrou o fogo, quando essa mesma Força Aérea foi das primeiras entidades portuguesas a pensar no problema dos incêndios, desenvolvendo e preparando um sistema de lançamento de calda retardante sobre os fogos. As experiências com o C-130 provaram que podiam ser uma mais valia para acabar com os grandes incêndios... mas as empresas privadas logo se atiraram contra a ideia, pois era a 'Tropa', com meios humanos quase de graça,  a competir  com os desgraçadinhos que apenas querem ganhar a vidinha alugando meios de combate aos fogos, sabe Deus com a utilização de que meios. Depois dizem que foi fogo posto, mas foi o desgraçado do 'tolinho' da  zona que arcou com as culpas! Cala-te boca!
A propósito: PORTUGAL JÁ ESTÁ... A ARDER?  
 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

AO CORRER DA PENA...

 
Gosto de caminhar, sem sentido nem destino, para sentir o fresco da brisa no rosto, especialmente quando é tempo de canícula.
Ao olhar a limpidez do céu azul, sinto poder olhar um pouco para além do infinito, onde não encontro pedra para repousar a cabeça, como o Filho de Deus também se queixou não ter encontrado na terra... segundo as Sagradas Escrituras.
Os ramos balançam e sussurram, oscilam e soltam as folhas secas como uma chuva de papelinhos multicolor que esvoaçam em turbilhão, enquanto as flores irrompem em matizes e aromas que nenhum alquimista jamais conseguiu encontrar nos seus tubos de ensaio.
A Natureza é algo de inexoravelmente belo, intrigante, vivificante, apaixonante... talvez capaz de ser elixir para a juventude daqueles que dela fazem culto. 
Quem pode deixar de se emocionar quando vê a fauna e a flora que Deus colocou sobre a terra para deleite dos homens?
Quem não gosta de ver a  beleza de um tigre, mesmo sabendo que é um sagaz assassino? E de um leão, com a juba bela solta ao vento?
E olhando as aves nos céus... quanta beleza nas araras, papagaios ou catatuas; quanta ternura no patinhos que nadam nas águas calmas do lago, nos cisnes, nos pavões, faisões e outros similares... os seus cantares bastante melodiosos, de um trinar que parece vir dos céus.
É nestes momentos que dou graças pela obra da Criação levada a cabo por Deus, que assim quis proporcionar ao Homem momentos de encantamento! Obrigado, Pai, por tudo quanto nos quisestes dar para Tua maior glória.
Mas não gostaria de terminar sem uma resposta a uma pergunta que me ocorre fazer já há alguns tempos:
- QUEM SERÁ MAIS PERIGOSO? O HOMEM OU O TIGRE?
É que o tigre ainda não colocou o Homem na lista dos 'animais' em vias de extinção, mas o contrário acontece!
 
 
 

sexta-feira, 28 de junho de 2013

SONHOS E UTOPIA...

 
Na meninice sonhamos com fadas e duendes, com gnomos, fadas e princesas... nos fomentos difíceis da vida, temos esperança de que tudo irá mudar... nos momentos de desânimo, agarramos a fé com unhas e dentes... quando envelhecemos já não sonhamos com as  fantasias da infância, mas continuamos a sonhar com um mundo sem a atribulações que viemos encontrar no dia em que nascemos, que foram sofrendo mutações, tornaram-se imunes a alguns tipos de sentimentos... pois o desespero é um condimento muito usado no crescimento humano, corroendo-nos no quotidiano, com uma vontade apenas possível de encontrar nos desiludidos da vida... e eles são tantos... tantos...
Sonhar até é bacano, dá para viver uma fantasiosa vida de ilusões, porque a ilusão não é uma fantasia de per si, mas a fantasia configurará uma ilusão... porque é utópico pensar-se ser possível alguém se iludir com um país fantasiado de democrático, pois a democracia é não só um estado de alma, como um estado de espírito... mas  um espírito dotado de identidade, não corruptível nas ideias que tece, para poder ser digno de ser chamado justo.
 
 
Uma vez por outra lá aparece aquela situação de haver democracia e não se saber, porque os pasquins, que se vão publicando um pouco por toda a parte, teimam em chamar os bois pelos nomes... mas nem sequer sabem distinguir estes animais dos ronceiros jumentos, que transportavam os grãos de trigo para os  moinhos e a farinha para casa do moleiro, mas foram substituídos nesta tarefa pelo tractor ou pela carinha 4x4, como o foram os moinhos da nossa infância, tão cantados pelos poetas de antanho.
É curioso o facto de as democracias pressuporem a existência de ditaduras, estando-lhe muitas das vezes feitas reféns.
 
 
As leis que ditam o ser democrático dizem que temos de fazer isto ou aquilo... mas também dizem que aquela ou aqueloutra situação ficam inibidas, banidas, proibidas... e numa democracia não pode haver lugar para a palavra PROIBIR, que deve ser banida dos dicionários para todo o sempre, tal como o SOFRIMENTO, a DOR, o ÓDIO, a GUERRA, a FOME... pois todo o Homem terá naquele que vive ao seu lado alguém que não é sonho nem utopia, mas uma realidade palpável, a que nos une o mais perfeito dos sentimentos: A AMIZADE, como irradiação do AMOR entre todo o género humano.  

sábado, 15 de junho de 2013

VOLTAR À TERRA...

Sonhar era fácil ontem? E hoje? Amanhã é utópico pensar-se que a vida pode estar dependente das boas ou más disposições de Morfeu, pois do sonho ao pesadelo há apenas uma fina linha imaginária, se alguém pode chamar de imaginário um traço que vai do segundo à hora, desta ao dia, à semana, ao mês, aos anos sucedidos em catadupa até que a Ceifeira vem segar a seara de uma vida amadurecida no entretém dos sonhos passados.
A terra, quando se sente abandonada pelo homem que a devia cuidar, costuma ser dura nos castigos que aplica, pois manda  fazer redução nos frutos das más práticas agrícolas, deixando o homem à míngua do pão... que não fez por merecer, porque descurou o cumprimento taxativo do contrato que um dia a enxada dos avoengos assinou com ela, obrigando-se então o homem a regar a terra com o suor do seu rosto... e a terra daria 100 por 1 na hora da colheita!
Depois vieram as máquinas, e novo contrato foi feito, para manter a terra satisfeita com a acção do homem, chegando a dar-lhe bónus de 200 por um e até mais... mas depressa o homem trocou os benefícios da terra pelo fato de macaco da fábrica, a gravatinha ao pescoço, o teclado do computador ou a cadeira de gestor da fábrica que, graças à inovação, vai pagando chorudos vencimentos compensatórios pelo abandono da terra que lhes dava o pão... mas a inovação vai retirando necessidade de braços para a indústria, os lucros da empresa começam a afundar-se e o gestor acaba largado nas ruas do sonho desfeito... e a terra vai-se sentindo vingada a cada dia que passa, pois o pão também se acaba um dia, só que chorar já não resolve nada!
Não sei se  aquilo que acabo de referir não será 'apenas' o reflexo de um pesadelo, pois os pesadelos apenas são o fruto de um cérebro que está cansado e não uma realidade da vida... ou será o preâmbulo de um fim anunciado?
Hoje sonha-se voltar à terra... mas não sabemos se ela já perdoou a traição que foi a denuncia de um acordo de séculos feito entre os homens que aprenderam a amar a terra... até que a ganância tomou conta das consciências e perverteu os sentimentos pela terra de tal forma que até as belezas que o Criador deixara para regalo dos homens de todos os tempos acabassem  destruídas na sua maioria, porque ao homem apenas interessava o poder, fosse ele do dinheiro, das armas, da prepotência, da crueza de vida para com aqueles que não se vergam aos seus caprichos.
Voltar à terra vai demorar algum tempo a assimilar... mas é uma esperança que não pode ser menosprezada, pois será a terra quem poderá conceder ao homem mais uns séculos de felicidade... enquanto não voltar a ter um ataque de novo-riquismo bacoco!
Voltar à terra...  Utopia? Brincadeira? Necessidade?
Sonhar é fácil... e ainda nem paga imposto, sabiam?

sábado, 4 de maio de 2013

NO DIA DA MÃE...


...não posso esquecer tudo quanto lhe devo, pois ela foi autora da minha vida, fui eu quem lhe pesou no ventre todos aqueles meses que se seguiram à fecundação, à gravidez e, finalmente, ao parto! Foi a mim que ela, generosa, deu  os seios para me amamentar, foi ela que cuidou que andasse sempre limpo, fraldas trocadas por outras sequinhas, atenção à mais ligeira indisposição, que agora é uma cólica, depois é o romper da dentição, amanhã será a queda quando se jogava à bola com os outros meninos ou meninas, porque também elas gostam de jogar.
Quando se acendeu a minha primeira velinha no bolo de aniversário...que ela ajudou a apagar e, poderia jurar, fez o pedido do primeiro desejo, que terá sido vêr o meu crescimento em graça e idade, com muita saúde e o amor dos meus pais... mas não reparei que tivesse pedido nada para ela, pois o seu modo de ser mãe é dar...dar...dar sem medida, não cuidando de si própria, porque tudo estava concentrado em mim!
Eu fui crescendo, em graça e idade, como a minha Mãe sempre desejou, tive dias melhores e piores, como todas as pessoas em crescimento, mas ela estava sempre atenta, sofrendo se eu sofria, sorrindo se eu sorria... e os cabelos dela foram encanecendo, ficaram cada dia mais claros, algumas rugas marcaram o rosto tão doce que sempre gostei de acariciar... porque as Mães gastam-se como tudo aquilo que tem muito uso! E não há peças de substituição para efectuar reparações nas Mães, razão para lhe ser dado bom uso, carinho, atenção, amor... até que ela deixa mesmo de nos sorrir, porque os olhos se fecharam para sempre.
Mas, mesmo neste momento, o coração da Mãe vai mantendo acesa a centelha de amor que sempre nos dedicou! Ele partiu mas ficou, porque apenas as Mães sabem fazer esse milagre do ir ficando, através de uns pós mágicos chamados SAUDADE!
Hoje é Dia de todas as Mães, porque, para elas, todos os dias são o Dia dos Filhos.
Que posso dar à minha Mãe para ela ser feliz? É ser eu mesmo uma pessoa feliz, que dá Amor porque também o recebe! Apenas a Mãe sabe sempre como se consola um filho... mesmo que este não se dê ao trabalho de lhe dar a ela o consolo que tanto merece.
A todas as Mães: BOM DIA DAS MÃES, COM AMOR E PAZ!

quarta-feira, 24 de abril de 2013

AINDA ONTEM ERA ABRIL...

 
Ainda ontem vivi Abril, mas também os outros meses, nunca ligando aos que a revolução veio tratar como burgueses!
Ainda ontem era Abril em que havia trabalhadores, gente honesta e ordeira, ainda que não tivessem flores, eram gente verdadeira!
'Foi bonita a festa, pá...', cantava o cantor famoso, enquanto o Zeca Afonso e outros, tornavam este Abril famoso!
 
Já cá estava o Soares, mas logo chegou o Cunhal, soltaram-se os presos de Caxias, do Aljube ou de Custóias,  tratou-se de prender a PIDE e com eles patrões fascistas e reacionários, que era como chamavam a quem naquele tempo dava trabalho ao Povo. Talvez ainda fosse Abril... quem sabe...
 
E Abril há todos os anos, é constante a revolução das armas com cravos no cano... mas tudo isto são enganos porque não há liberdade onde falta pão e trabalho, onde não há justiça e saúde e o bom é só para alguns... que dizem ser militares de Abril, que trouxeram democracia... mas não sabem onde ela está, se por cá esteve algum dia...
 
 
Quem responderá pelas vidas que o Ultramar reclamou, Militares que tudo deram e caíram no campo da honra... traídos na longínqua metrópole, naquele bocado da Pátria que se chamava Portugal... e digo chamava, porque não sabemos hoje o que somos, depois que Abril passou!
 
Talvez houvessem conquistas, como o direito de contestar, de fazer manifestação, de destruír património, de alimentar mentecaptos que dizem representar o Povo, mas nem a eles se representam... porque antes de haver Abril, nós tinha-mos dignidade, vergonha de ser apontados, havia do conceito 'família' um orgulho colossal, porque gostávamos de reunir nos dias festivos, de sofrer o seu sofrimento, de ser solidários no bem e no mal... não havia casamentos 'gay' nem adopções de casais homosexuais! Uma criança nascia com direito a uma identidade... contráriamente àquilo que os tribunais hoje advogam!
 
 

Hoje, tudo está mudado... e não garanto que para melhor, pois um 'canudo' serve apenas para 'snifar' as drogas que são proibidas, mas que ninguém consegue irradicar, porque há interesses instalados que Abril veio confirmar!
Ainda ontem era Abril, mas amanhã vai ser lembrado aquele de 74..., mas  o País  está destroçado!
Valeu a pena? 'Tudo vale a pena, se a alma não é pequena!'. Para o ano que vem, continuará a cantar-se Abril... mas este vale de lágrimas irá manter-se, porque somos o Povo do Fado e este simboliza a tristeza.
AINDA ONTEM ERA ABRIL...

sábado, 16 de fevereiro de 2013

POESIA ERÓTICA PORTUGUESA

    [SONETO DO EPITAPHIO]
 
Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daquelles, que não fazem falta,
Verbi-gratia — o theologo, o peralta,
Algum duque, ou marquez, ou conde, ou frade:
 
Não quero funeral communidade,
Que engrole "sub-venites" em voz alta;
Pingados gattarrões, gente de malta,
Eu tambem vos dispenso a caridade:
 
Mas quando ferrugenta enxada edosa
Sepulchro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitaphio mão piedosa:
 
"Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro".
………………………………………………………………
Autor :
Manuel Maria Barbosa du Bocage

sábado, 22 de dezembro de 2012

poetas portugueses e o NATAL


Natal
Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.
Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.
Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.
Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.
 
Manuel Maria Barbosa du Bocage

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

ACÁCIO DE PAIVA


 
Carta ao Perú dos Olivais

1ª Carta

Adorada perua:

Há três dias que, adiante do patrão,

Ando de rua em rua

Não sei por que razão.

Como tu viste, o homem resolveu

Fazermos em Lisboa a consoada,

Para me divertir, suponho eu.

Porém, se adivinhasse esta estopada,

Tinha-lhe dito logo que não vinha,

Tanto mais, tanto mais, não vindo tu,

Minha peruazinha,

Por quem morre de amor o teu peru.

2ª Carta

Meu anjo…Escrevo agora na cozinha

Duma senhora muito delicada,

Que me tem dado esplêndida papinha

Assim como a criada.

Há pouco ainda (ora imagina, filha!)

Deram-me até um copo de Bucelas

Que me adoçou muitíssimo as goelas,

E é uma verdadeira maravilha.

Mas Deus queira, Deus queira,

Como só bebo água lá em casa,

Que não me faça mal à mioleira,

E que eu não fique com o grão na asa.

Amanhã te direi o que é passado.

Recebe mil bicadas cordiais

Do teu apaixonado

3ª Carta

Querida. Água a ferver…Uma panela

Ao pé dum alguidar…Tenho receio…

Fala-se em cabidela

E em peru de recheio…

Afia-se uma faca…Ó céus! Que horror!

O monco já me cai…Nunca supus…

Que é isto, meu amor?

Ai Jesus. Ai Jesus!

Já tenho as pernas presas…

Tolda-se a vista…Engasgo-me…Agonizo…

Tremem-me as miudezas…

Turva-se-me o juízo…

Adeus: Recebe o último glu-glu

E os corais

Do in…fe…liz

Pe…ru dos O…li…vais
.

PAIVA, Acácio de. in "Fábulas e Historietas"

Acácio de Paiva nasceu em Leiria, em 1863 e faleceu na sua casa da Quinta das Conchas, na Freguesia do Olival, em Ourém, em 29 de Novembro de 1944.
Era licenciado em Farmácia. Foi poeta, jornalista, humorista, crítico. Dirigiu a “Ilustração Portugueza”

quarta-feira, 25 de julho de 2012

POESIA... AO ACASO

Acaso

No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.
Perco-me subitamente da visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigentemente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar,
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era a respeito de uma rapariga,
De uma rapariga loira,
Mas qual delas?
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade
Numa outra espécie de rua;
Por que todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional.
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser... A rapariga loira?
É a mesma afinal...
Tudo é o mesmo afinal ...

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

domingo, 6 de maio de 2012

DIA DA MÃE


Uma criança pronta para nascer perguntou a Deus:

- Dizem-me que estarei sendo enviado à terra amanhã... Como vou viver lá, sendo assim pequeno e indefeso?

E Deus disse: - Entre muitos anjos, eu escolhi um especial para você. Estará lhe esperando e tomará conta de você.

Criança: - Mas diga-me: Aqui no Céu eu não faço nada a não ser cantar e sorrir, o que é suficiente para que eu seja feliz. Serei feliz lá?

Deus:
- Seu anjo cantará e sorrirá para você... a cada dia, a cada instante, você sentirá o amor do seu anjo e será feliz.

Criança:
- Como poderei entender quando falarem comigo, se eu não conheço a língua que as pessoas falam?

Deus: - Com muita paciência e carinho, seu anjo lhe ensinará a falar.

Criança: - E o que farei quando eu quiser Te falar?

Deus:
- Seu anjo juntará suas mãos e lhe ensinará a rezar.

Criança:
- Eu ouvi que na Terra há homens maus. Quem me protegerá?

Deus:
- Seu anjo lhe defenderá mesmo que signifique arriscar sua própria vida.

Criança:
- Mas eu serei sempre triste porque eu não Te verei mais.

Deus:
- Seu anjo sempre lhe falará sobre Mim, lhe ensinará a maneira de vir a Mim, e eu estarei sempre dentro de você.

Nesse momento havia muita paz no céu, mas as vozes da terra já podiam ser ouvidas. A criança apressada, pediu suavemente:

- Oh Deus se eu estiver a ponto de ir agora, diga-me por favor, o nome do meu anjo.

E Deus respondeu:
- Você chamará seu anjo... MÃE!

Autor desconhecido

quinta-feira, 22 de março de 2012

NATÁLIA... a poetisa... deputada...mulher...



O ESPÍRITO
Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
A vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando

Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

.
Este Poema é de
Natália Correia (1923-1993)