sábado, 22 de dezembro de 2012

poetas portugueses e o NATAL


Natal
Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.
Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.
Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.
Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.
 
Manuel Maria Barbosa du Bocage

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

ACÁCIO DE PAIVA


 
Carta ao Perú dos Olivais

1ª Carta

Adorada perua:

Há três dias que, adiante do patrão,

Ando de rua em rua

Não sei por que razão.

Como tu viste, o homem resolveu

Fazermos em Lisboa a consoada,

Para me divertir, suponho eu.

Porém, se adivinhasse esta estopada,

Tinha-lhe dito logo que não vinha,

Tanto mais, tanto mais, não vindo tu,

Minha peruazinha,

Por quem morre de amor o teu peru.

2ª Carta

Meu anjo…Escrevo agora na cozinha

Duma senhora muito delicada,

Que me tem dado esplêndida papinha

Assim como a criada.

Há pouco ainda (ora imagina, filha!)

Deram-me até um copo de Bucelas

Que me adoçou muitíssimo as goelas,

E é uma verdadeira maravilha.

Mas Deus queira, Deus queira,

Como só bebo água lá em casa,

Que não me faça mal à mioleira,

E que eu não fique com o grão na asa.

Amanhã te direi o que é passado.

Recebe mil bicadas cordiais

Do teu apaixonado

3ª Carta

Querida. Água a ferver…Uma panela

Ao pé dum alguidar…Tenho receio…

Fala-se em cabidela

E em peru de recheio…

Afia-se uma faca…Ó céus! Que horror!

O monco já me cai…Nunca supus…

Que é isto, meu amor?

Ai Jesus. Ai Jesus!

Já tenho as pernas presas…

Tolda-se a vista…Engasgo-me…Agonizo…

Tremem-me as miudezas…

Turva-se-me o juízo…

Adeus: Recebe o último glu-glu

E os corais

Do in…fe…liz

Pe…ru dos O…li…vais
.

PAIVA, Acácio de. in "Fábulas e Historietas"

Acácio de Paiva nasceu em Leiria, em 1863 e faleceu na sua casa da Quinta das Conchas, na Freguesia do Olival, em Ourém, em 29 de Novembro de 1944.
Era licenciado em Farmácia. Foi poeta, jornalista, humorista, crítico. Dirigiu a “Ilustração Portugueza”

quarta-feira, 25 de julho de 2012

POESIA... AO ACASO

Acaso

No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.
Perco-me subitamente da visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigentemente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar,
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era a respeito de uma rapariga,
De uma rapariga loira,
Mas qual delas?
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade
Numa outra espécie de rua;
Por que todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional.
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser... A rapariga loira?
É a mesma afinal...
Tudo é o mesmo afinal ...

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

domingo, 6 de maio de 2012

DIA DA MÃE


Uma criança pronta para nascer perguntou a Deus:

- Dizem-me que estarei sendo enviado à terra amanhã... Como vou viver lá, sendo assim pequeno e indefeso?

E Deus disse: - Entre muitos anjos, eu escolhi um especial para você. Estará lhe esperando e tomará conta de você.

Criança: - Mas diga-me: Aqui no Céu eu não faço nada a não ser cantar e sorrir, o que é suficiente para que eu seja feliz. Serei feliz lá?

Deus:
- Seu anjo cantará e sorrirá para você... a cada dia, a cada instante, você sentirá o amor do seu anjo e será feliz.

Criança:
- Como poderei entender quando falarem comigo, se eu não conheço a língua que as pessoas falam?

Deus: - Com muita paciência e carinho, seu anjo lhe ensinará a falar.

Criança: - E o que farei quando eu quiser Te falar?

Deus:
- Seu anjo juntará suas mãos e lhe ensinará a rezar.

Criança:
- Eu ouvi que na Terra há homens maus. Quem me protegerá?

Deus:
- Seu anjo lhe defenderá mesmo que signifique arriscar sua própria vida.

Criança:
- Mas eu serei sempre triste porque eu não Te verei mais.

Deus:
- Seu anjo sempre lhe falará sobre Mim, lhe ensinará a maneira de vir a Mim, e eu estarei sempre dentro de você.

Nesse momento havia muita paz no céu, mas as vozes da terra já podiam ser ouvidas. A criança apressada, pediu suavemente:

- Oh Deus se eu estiver a ponto de ir agora, diga-me por favor, o nome do meu anjo.

E Deus respondeu:
- Você chamará seu anjo... MÃE!

Autor desconhecido

quinta-feira, 22 de março de 2012

NATÁLIA... a poetisa... deputada...mulher...



O ESPÍRITO
Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
A vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando

Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

.
Este Poema é de
Natália Correia (1923-1993)