quarta-feira, 21 de julho de 2010

Poesia Camoneana

"Estava a triste Alcione esperando
Com longos olhos o marido ausente;
Mas os irados ventos, assoprando,
Nas águas o afogaram, tristemente,
Em sonhos se lhe está representando,
Que o coração presago nunca mente;
Só do bem as suspeitas mentirão,
Que as do mal futuro, certas são.
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Ao pranto os olhos seus a triste ensaia;
Buscando o mar com eles, ia e vinha,
Quando o corpo sem alma achou na praia,
Sem alma o corpo achou que na alma tinha!
Nereidas do Egeu, consolai-a,
Pois este triste ofício vos convinha!
Consolai-a; saí das vossas águas,
Se consolação há em grandes mágoas.
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Mas, óh! néscio de mim! que estou falando
Das avezinhas mansas e amorosas,
Se também teve Amor poder e mando
Entre as feras monteses venenosas?
O leão e a leoa, como ou quando
Tais formas alcançaram temerosas?
Sabe-o da deusa Dindimene o templo,
E a que o deu a Adónis por exemplo.
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Quem fosse a mansa vaca, di-lo-ia;
Mas o grão Nilo o diga, que o adora.
Que forma tem a Ursa, saber-se-ia,
Do Polo Boreal, onde ela mora.
Em caso de Actéon também diria,
Em cervo transformado; e milhor fora
Que dos olhos perdera a vista pura,
Que escolher nos seus galgos sepultura."
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Luis Vaz de Camões