terça-feira, 31 de março de 2009

O DIA DAS MENTIRAS

MENTIRAS
*
Versos! Versos! Sei lá o que são versos…
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma.
Versos!… Sei lá! Um verso é teu olhar,
Um verso é teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!… Sei eu lá também que são…
Sei lá! Sei lá!… Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez…
Versos! Versos! Sei lá o que são versos..
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!…

domingo, 29 de março de 2009

Momento de poesia...


O CONVERTIDO
*
Entre os filhos dum século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
Duma ânsia impotente de infinito.
Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza…
Mas um dia abalou-se-me a firmeza,
Deu-me um rebate o coração contrito!
Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para Deus minha alma triste!
Amortalhei na Fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento…
Só me falta saber se Deus existe
*
Autor:
Antero de Quental

terça-feira, 17 de março de 2009

O DIA DO PAI - 19/MARÇO

Paizinho, tú és um herói!

Dizes-me que sou o futuro,
mas, por favor, querido Pai,
ampara o meu presente!
Afirmas que sou a esperança da paz!
Não permitas que o mundo me induza à guerra!
Dizes-me que sou a promessa do bem...
...preserva-me do ódio, que leva ao mal!
Com ternura, dizes que sou a luz dos teus olhos...
Querido Pai: não me abandones nas trevas!
Não espero sómente pelo teu pão;
Quero sentir o calor da tua mão na minha!
Não desejo somente a festa do teu carinho...
...mas suplico-te o carinho que educa!
Não sou apenas o ornamento da tua vida,
porque quero ser o orgulho de todos os teus momentos!
Dizes que sou o futuro de um amor puro...
... não permitas que nada possa macular a minha pureza!
Querido Pai: Dizes que vivo num mundo da fantasia...
então orienta-me para que:
- os meus sonhos sejam de bondade,
- os meus actos sejam de justiça,
- a minha fé em Deus seja inabalável.
Ensina-me, meu Pai, o valor do trabalho...
...a nobreza da humildade...
...a força do perdão, e sobretudo,
Pai querido, sou eu que te peço,
corrige-me enquanto é tempo...
...ainda que eu possa sofrer...
Ajuda-me hoje, para que amanhã...
eu não te venha a fazer chorar.


( autor desconhecido)

sexta-feira, 6 de março de 2009

UM DIA A RECORDAR


SONETO PARA TI

*
Paixão do Próprio Deus
Em Maria Nossa Senhora
Aceita estes Versos meus
Para te cantar nesta hora

A Formosura Encarnada
Febre de tanta Paixão
Mulher é Bruxa e Fada
Que nos tira o sono e razão

Mulher é Mãe de Ternura
Elo na Vida o Principal
Nela está toda a Candura

De um colo tão maternal
Que até esta vida tão dura
Não parece ter qualquer mal!

*
Autor desconhecido

domingo, 1 de março de 2009

RAIZ DE ORVALHO...

dddd
Sou agora menos eu
e os sonhos
que sonhara ter
em outros leitos despertaram
dddd
Quem me dera acontecer
essa morte
de que se não morre
e para um outro fruto
me tentar seiva ascendendo
porque perdi a audácia
do meu próprio destino
soltei a ânsia
do meu próprio delírio
e agora sinto
tudo o que os outros sentem
sofro do que eles não sofrem
anoiteço na sua lonjura
e vivendo na vida
que deles desertou
ofereço o mar
que em mim se abre
à viagem mil vezes adiada
dddd
De quando em quando
me perco
na procura da raiz do orvalho
e se de mim me desencontro
foi porque de todos os homens
se tornaram todas as coisas
como se todas elas fossem
o eco das mãos
a casa dos gestos
como se todas as coisas
me olhassem
com os olhos de todos os homens
dddd
Assim me debruço
na janela do poema
escolho a minha própria neblina
e permito-me ouvir
o leve respirar dos objectos
sepultados em silencio
e eu invento o que escrevo
escrevendo para me inventar
e tudo me adormece
porque tudo desperta
a secreta voz da infância
dddd
Amam-me demasiado
as coisas de que me lembro
e eu entrego-me
como se furtasse
à sonolenta carícia
desse corpo que faço nescer
dos versos
a que livremente me condeno.
dddd
Um poema de Mia Couto
(Agosto 1982)