sexta-feira, 23 de novembro de 2012

ACÁCIO DE PAIVA


 
Carta ao Perú dos Olivais

1ª Carta

Adorada perua:

Há três dias que, adiante do patrão,

Ando de rua em rua

Não sei por que razão.

Como tu viste, o homem resolveu

Fazermos em Lisboa a consoada,

Para me divertir, suponho eu.

Porém, se adivinhasse esta estopada,

Tinha-lhe dito logo que não vinha,

Tanto mais, tanto mais, não vindo tu,

Minha peruazinha,

Por quem morre de amor o teu peru.

2ª Carta

Meu anjo…Escrevo agora na cozinha

Duma senhora muito delicada,

Que me tem dado esplêndida papinha

Assim como a criada.

Há pouco ainda (ora imagina, filha!)

Deram-me até um copo de Bucelas

Que me adoçou muitíssimo as goelas,

E é uma verdadeira maravilha.

Mas Deus queira, Deus queira,

Como só bebo água lá em casa,

Que não me faça mal à mioleira,

E que eu não fique com o grão na asa.

Amanhã te direi o que é passado.

Recebe mil bicadas cordiais

Do teu apaixonado

3ª Carta

Querida. Água a ferver…Uma panela

Ao pé dum alguidar…Tenho receio…

Fala-se em cabidela

E em peru de recheio…

Afia-se uma faca…Ó céus! Que horror!

O monco já me cai…Nunca supus…

Que é isto, meu amor?

Ai Jesus. Ai Jesus!

Já tenho as pernas presas…

Tolda-se a vista…Engasgo-me…Agonizo…

Tremem-me as miudezas…

Turva-se-me o juízo…

Adeus: Recebe o último glu-glu

E os corais

Do in…fe…liz

Pe…ru dos O…li…vais
.

PAIVA, Acácio de. in "Fábulas e Historietas"

Acácio de Paiva nasceu em Leiria, em 1863 e faleceu na sua casa da Quinta das Conchas, na Freguesia do Olival, em Ourém, em 29 de Novembro de 1944.
Era licenciado em Farmácia. Foi poeta, jornalista, humorista, crítico. Dirigiu a “Ilustração Portugueza”