quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Poesia Portuguesa

Poema do silêncio

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.
*
Poema de José Régio

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Os Portadores de Sonhos

Em todas as profecias está prevista
a destruição do mundo.
Todas as profecias dizem que o homem criará
a sua própria destruição.
Porém os séculos e a vida, que sempre se renovam,
criariam também uma geração
de amantes e sonhadores;
homens e mulheres que não sonharam
com a destruição do mundo,
e sim com a construção do mundo das mariposas
e dos rouxinóis.
Desde pequeninos vinham marcados pelo amor.
Por trás de sua aparência quotidiana
guardavam a ternura e o sol da meia-noite.
Suas mães os encontraram
chorando por um pássaro morto
e mais tarde muitos foram encontrados
mortos como pássaros.
Estes seres coabitaram com mulheres translúcidas
e elas ficaram prenhes de mel
e de filhos reverdecidos por um inverno de carícias.
Foi assim que proliferaram no mundo
os portadores de sonhos,
atacados ferozmente pelos portadores de profecias
que falavam de catástrofes.
Foram chamados iludidos, românticos,
pensadores de utopias,
disseram que suas palavras eram velhas
- e de fato eram porque a memória do paraíso
é antiga no coração do homem -
os acumuladores de riquezas os temiam
e lançavam seus exércitos contra eles,
mas os portadores de sonhos
faziam amor todas as noites
e do seu ventre brotava a semente
que não somente portava sonhos
mas que os multiplicavam e os fazia correr e falar.
E assim o mundo criou de novo a sua vida
da mesma forma que havia criado
os que inventaram a maneira de apagar o sol.
Os portadores de sonhos sobreviveram
aos climas gélidos
e nos climas quentes pareciam brotar
por geração espontânea.
Quem sabe as palmeiras, os céus azuis,
as chuvas torrenciais tiveram a ver com isso,
a verdade é que, como formiguinhas operárias,
estes espécimes não deixavam de sonhar
e construir mundos formosos,
mundo de irmãos, de homens e mulheres
que se chamavam companheiros,
que se ensinavam a ler uns aos outros,
consolavam-se diante da morte,
se curavam e se cuidavam entre si,
se ajudavam na arte de querer
na defesa da felicidade.
Eram felizes em seu mundo de açúcar e de vento
e de todas as partes vinha gente
impregnar-se de alento e de suas claras percepções
e de lá partiam os que os haviam conhecido
portando sonhos, sonhando com novas profecias
que falavam de tempos de mariposas e rouxinóis,
onde o mundo não haveria de findar na hecatombe
mas onde os cientistas desenhariam fontes, jardins,
brinquedos surpreendentes
para fazer mais gostosa a felicidade do homem.
São perigosos - imprimiam as grandes rotativas -
São perigosos - diziam os presidentes em seus discursos - ,
São perigosos - murmuravam os artífices da guerra -
Devem ser destruídos
- imprimiam as grandes rotativas - .
Os portadores de sonhos conheciam seu poder
e por isso nada achavam de estranho
E sabiam também que a vida os havia criado
para proteger-se da morte que as profecias anunciam
E por isso defendiam sua vida até a morte
E por isso cultivavam os jardins de sonhos
e os exportavam com grandes laços coloridos
e os profetas obscuros passavam noites
e dias inteiros vigiando
as passagens e os caminhos
procurando essas cargas perigosas
que nunca conseguiram encontrar
porque quem não tem olhos para sonhar
não enxerga os sonhos nem de dia, nem de noite.
E no mundo sucedeu um grande tráfico de sonhos
que os traficantes da morte não podiam estancar;
em todas as partes há pacotes com laços de fita
que só esta nova raça de homens pode ver
e a semente destes sonhos não se pode detectar
porque está envolta em corações vermelhos.
*
Um poema de
Gioconda Belli