segunda-feira, 20 de julho de 2009

ODE AOS REIS CRISTÃOS

Onde, onde assi cruéis
Correis tão furiosos
Não contra os infiéis
Bárbaros poderosos
Turcos de nossos roubos gloriosos?
Não para a mal perdida
Cabeça do Oriente
Nos ser restituída
Tão pia, e cristãmente,
Roubo a vós feio,
e rico à Turca gente,
Não para a Casa Santa,
Santa Terra pisada
Dos infiéis com tanta
Afronta vossa, armada
A mão vos vejo,
nem bandeira alçada.
Nem para em fogo arder
Desde chão té às ameias
Meca, e Cairo; e se ver
Trazido em mil cadeias
Em triunfo o seu Rei com nossas preias.
Ah cegos, contra vós
Vos leva cruel furor!
Ah que fartando em nós,
E em vosso sangue o ardor,
Que o inimigo tem fazei-lo vencedor.
Vós armas, vós lhes dais
Ao covarde ousadia,
Em quanto vos matais,
Eis Rodes, eis Hungria
Em sangue, em fogo, em nova tirania.
Paz santa dos Céus dada
Por via só, e bem nosso
Como tão desprezada
Deste justo ódio vosso
Reis Cristãos, té cruéis chamar-vos posso.
nunca se viu fereza
A esta, que usais igual,
Armados de crueza
Um ao outro animal
Da mesma natureza não faz mal.
Tornai, tornai, ó Reis
À paz, tende-vos ora,
Olhai-vos, e vereis
Com quanta razão chora
A Cristandade a paz que lançais fora
*
Poema de António Ferreira

sábado, 11 de julho de 2009

Todo o tempo é de poesia

Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.

Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia
Todo o tempo é de poesia
Entre bombas que deflagram.

Corolas que se desdobram.

Corpos que em sangue soçobram.

Vidas qu'a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.

Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.
*
António Gedeão