quinta-feira, 8 de outubro de 2009

SONHOS... COM SAUDADE...

Ode ao Emigrante
*
Longe da pátria, sob um céu diverso
Onde o sol como aqui tanto não arde,
Chorei saudades do meu lar querido
- Ave sem ninho que suspira à tarde!

No mar – de noite – solitário e triste
Fitando os lumes que no céu tremiam,
Ávido e louco nos meus sonhos d’alma
- Folguei nos campos que meus olhos viam!
Era pátria e família e tudo,
Glória, amores, mocidade e crença,
E, todo em choros, vim beijar as praias
- Porque chorara nessa longa ausência.

Eis-me na pátria, no país das flores,
- O filho pródigo a seus lares volve,
E consertando as suas vestes rotas,
- O seu passado com prazer revolve! ---

Eis meu lar, minha casa, meus amores,
A terra onde nasci, meu tecto amigo,
A gruta, a sombra, a solidão, o rio
Onde o amor me nasceu – cresceu comigo!

Os mesmos campos que eu deixei criança,
Árvores novas ... tanta flor no prado !....
Oh! Como és linda, minha terra d’alma,
- Noiva enfeitada para o seu noivado! ---

Foi aqui, foi ali,... além,... mais longe,
Que eu sentei-me a chorar no fim do dia;
Là vejo o atalho que vai dar na várzea ...
- Lá o barranco por onde eu subia! ...

Acho agora mais seca a cachoeira
Onde banhei-me no infantil cansaço ...
- Como está velho o laranjal tamanho
Onde eu caçava o sanhaçu a laço! ...

Como eu me lembro dos meus dias puros!
Nada m’esquece! ... e esquecer quem há-de?...
- Cada pedra que eu palpo, ou tronco, ou folha,
- Fala-me ainda dessa doce idade!

Eu me remoço recordando a infância,
E tanto a vida me palpita agora
Que eu dera,... oh! Deus!, a mocidade inteira
- Por um só dia do viver de outrora!

(Autor: Casimiro de Abreu)