terça-feira, 23 de setembro de 2008

SONHOS...


Sonhos!..

E, embarquei neste batel ao léu...
Onde seria conduzida a não ser ao Porto do Amor!?
Com minha fantasia, cheguei rápido, perto de ti.
Com um " frisson ", me sentiste.

Não me mostrei...
Seria apenas um sonho, um toque..
Suspirei sobre teus cabelos, teu rosto, tua boca.
Beijei-a apaixonadamente!..
Sentiste-me, pois vi, em teu olhar um brilho diferente.
Fechaste teus olhos e um prazer imenso te inundou.
Senti uma pérola descida em tua face:
Uma lágrima deslizou .

Eu a peguei e a guardei, em meu coração,
para juntar a minha lágrima que deslizou logo após,
atrás da tua, nessa saudade imensa,
que nos invade a alma,
quebra a correnteza,
se liberta de tudo
espera apenas o momento de amar!..


Um poema de
Eda Carneiro da Rocha
" Poeta Amor "

sábado, 20 de setembro de 2008

LUIZ VAZ DE CAMÕES


- Canção 2 -
l
A instabilidade da Fortuna,
os enganos suaves de Amor cego,
(suaves, se duraram longamente),
direi, por dar à vida algum sossego;
que, pois a grave pena me importuna,
importune meu canto a toda a gente.
E se o passado bem co mal presente
me endurece a voz no peito frio,
o grande desvario
dará de minha pena sinal certo,
que um erro em tantos erros é concerto.
E, pois nesta verdade me confio
(se verdade se achar no mal que digo),
saiba o mundo de Amor o desconcerto,
ue já co a Razão se fez amigo,
só por não deixar culpa sem castigo.
j
Já Amor fez leis, sem ter comigo algüa;
já se tornou, de cego, arrazoado,
só por usar comigo sem-razões.
E, se em algüa cousa o tenho errado,
com siso, grande dor não vi nenhüa,
nem ele deu sem erros afeições.
Mas, por usar de suas intenções,
buscou fingidas causas por matar-me;
que, para derrubar-me
no abismo infernal de meu tormento,
não foi soberbo nunca o pensamento,
nem pretende mais alto alevantar-me
daquilo que ele quis; e se ele ordena
que eu pague seu ousado atrevimento,
saiba que o mesmo Amor que me condena
me fez cair na culpa e mais na pena.
k
Luis de Camões

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

OS VERSOS QUE TE FIZ...

o

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
o
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos p'ra te endoidecer!
o
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!
o
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz
o
Florbela Espanca

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

CARTA DE D.AFONSO DE ALBUQUERQUE


Quando esta escrevo a Vossa Alteza
Estou com um soluço que é sinal de morte.
Morro à vista de Goa, a fortaleza
Que deixo à índia a defender-lhe a sorte.
Morro de mal com todos que servi,
Porque eu servi o rei e o povo todo.
Morro quase sem mancha, que não vi
Alma sem mancha à tona deste lodo.
De Oeste a Leste a índia fica vossa;
De Oeste a Leste o vento da traição
Sopra com força para que não possa
O rei de Portugal tê-la na mão.
Em Deus e em mim o império tem raízes
Que nem um furacão pode arrancar...
Em Deus e em mim, que temos cicatrizes
Da mesma lança que nos fez lutar.
Em mais alguém, Senhor, em mais ninguém
O meu sonho cresceu e avassalou
A semente daninha que de além
A tua mão, Senhor, lhe semeou.
Por isso a índia há de acabar em fumo
Nesses doiros paços de Lisboa;
Por isso a pátria há de perder o rumo
Das muralhas de Goa.
Por isso o Nilo há de correr no Egito
E Meca há de guardar o muçulmano
Corpo dum moiro que gerou meu grito
De cristão lusitano.
Por isso melhor é que chegue a hora
E outra vida comece neste fim...
Do que fiz não cuido agora:
A índia inteira falará por mim.
.
Poema de
Miguel Torga

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A BELEZA DOS CAMPOS


Meus olhos fixam o manto
do campo coberto de flores...
...silvestres, é isso certo,
mas tão plenas de encanto,
com tantas fragâncias e odores,
sempre belas, de imensas cores!
São mil papoilas e margaridas,
onde as abelhas diligentes
cumprem bem o seu papel
pois em voos inteligentes,
vão recolhendo o loiro mel
que levam à colmeia
onde está todo o enxame
que pelo espaço campeia!
Ouvem-se no ar os trinados...
...há rouxinóis a cantar;
...toutinegras... cigarras,
e também o negro grilo,
dono de tão lindo trilar...
... devagar, vê se o agarras
para o pôres numa gaiola
onde ele goste de estar!
Há cheiros e mil gorjeios,
que se espalham pelo ar...
há tanta coisa tão bonita...
...andorinhas a voar...
...besouros e libelinhas...
...pombos, melros e falcões,
e isto me leva a pensar
que a Deus temos de louvar,
com os nossos corações,
por tudo quanto criou
mas não cabe nestas linhas:
Este Mundo que nos legou!
***
Poema de
Victor Elias

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O PASSEIO DE SANTO ANTÓNIO

Saíra Santo António do convento
a dar o seu passeio costumado
e a decorar num tom rezado e lento
um cândido sermão sobre o pecado.
Andando, andando sempre,
repetia o divino sermão piedoso e brando
e nem notou que a tarde esmorecia,
que vinha a noite plácida baixando
...................................................................

O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
o Menino Jesus baixou do céu,
...............................................................
Perto, uma bica de água murmurante
juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.
De braço dado para a fonte vinha
um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
ele trazia o coração no peito !
Sem suspeitarem de que alguém os visse,
trocaram beijos, ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
- Ó Frei António, o que foi aquilo?
O Santo, erguendo a manga do burel
para tapar o noivo e a namorada,
mentiu com a voz doce como o mel:
- Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada...
Uma risada límpida e sonora vibrou,
em notas de oiro pelo caminho.
-Ouviste ,Frei António ? Ouviste agora?
-Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho...
- Tu não estás com a cabeça boa!
Um passarinho a cantar assim?
E o pobre Santo António de Lisboa calou~se,
embaraçado, mas por fim corado,
como as vestes dos cardeais,
achou esta saída redentora :
- Se o Menino Jesus pergunta mais,
queixo-me a sua Mãe, Nossa Senhora .

***
Augusto Gil

domingo, 7 de setembro de 2008

PÁTRIA


Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro
Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Do longo relatório irrecusável
E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas
- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro
Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.
kkk
Poema de
Sophia de Mello Breyner

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

ODE À AMIZADE

- Árvore da Amizade -

Amigo...
*+*
És tu...
Tu que não pensas só em ti,
Que me ajudas quando estou em baixo,
Que nada queres, mas tudo dás,
Tu que ris, que brincas,
Que me fazes sentir gente,
Que sou alguém...
Mas...
És também,
Tu que me dizes não, quando é necessário,
Que me corriges quando erro,
Que me levantas quando caio,
Que me seguras quando vacilo,
Que me amparas quando tremo...
Tu! Que és meu AMIGO!...
*+*
Um poema de
João Almeida