sexta-feira, 28 de novembro de 2008

POEMA PARA A NEGRA


Deixa que os outros cantem o teu corpo
que dizem feiticeiro e sedutor,
e, na volúpia vã do pitoresco,
entoem madrigais á tua dor.
yyy
Deixa que os outros cantem teus requebros
nos passos de massemba e quilapanga,
e teus olhos onde há noites de luar,
e teus beiços que têm sabor de manga.
yy
Deixa que os outros cantem os teus usos
como aspectos formais da tua graça,
nessa conquista fácil do exotismo
que dizem descobrir na nossa raça.
uuu
Deixa que os outros cantem o teu corpo,
na captação atónita do viço
e fiquem sempre, toda a vida, a olhar
um muro de mistério e de feitiço...
iii
Deixa que os outros cantem o teu corpo
– que eu canto do mais fundo do teu ser,
ó minha amada, eu canto a própria África,
que se fez carne e alma em ti, mulher!
ii
Poema de Geraldo Bessa Victor
(Poeta Angolano)

sábado, 15 de novembro de 2008

Poema à Mãe Angolana


Avança Mãe Angolana
E dá o melhor de ti própria
Nesta luta de vida ou de morte
Avança pelos rios perigosos
Pelos pântanos lodosos
Pela savanas sem fim
Avança pelo incomensurável horror da guerra
Entre a chuva de bombas que ilumina a terra
Mas avança porque é necessário
Avança com teus braços feitos asas
Abertas sobre o solo pátrio
Para proteger os teus filhos
Não te detenhas nos gemidos do vento
Não prendas à forma das flores
Sublima o amor neste momento
Avança Mãe Angolana
Que a tua coragem fará vacilar os soldados
Os soldados que já foram meninos
Os soldados
A que o fascismo tolheu a vontade
E que caminham sobre os cadáveres das crianças
Com risos sarcásticos de vingança...
Avança Mãe Angolana
Na terra ensopada de sangue
Dor e lágrimas
Causadas pela guerra
Que ela florescera
Sustentada pelo teu querer
E terás para os teus filhos
O sol aberto nas pétalas
E a serenidade dos heróis
Depois de ganha a batalha.
***
Eugénia Neto
(poetisa angolana)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

AS SEM RAZÃO DO AMOR...



Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
ooo
lll

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a diccionários
e a regulamentos vários.
ooo
lll

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
ooo
lll

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor


(Carlos Drummont de Andrade)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

FELICIDADE...

Tristeza não tem fim
Felicidade sim
aaa
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
aaa
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira
aaa
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
aaa
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranqüila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor
aaa
A felicidade é uma coisa boa
E tão delicada também
Tem flores e amores
De todas as cores
Tem ninhos de passarinhos
Tudo de bom ela tem
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato dela sempre muito bem
aaa
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
aaa
A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite, passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor.aaa
Vinicius de Moraes

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

PROVÉRBIOS DE S.MARTINHO


oooo
iii
As geadas de São Martinho levam a carne e o vinho.
Dos Santos ao Natal perde a padeira o cabedal.
Dos Santos ao Natal, perde o marinheiro o cabedal.
De Outubro a Dezembro não busques o pão no mar.
oooo
jjjj
oooo
De Santa Catarina ao Natal, bom chover e melhor nevar.
De Santos ao Natal é bom chover e melhor nevar.
De Santos ao Natal, ou bom chover ou bem nevar.
De Santos ao Natal perde a padeira o cabedal.
oooo
mmmm
oooo
De Todos-os-Santos ao Natal, bom é chover e melhor nevar.
De Todos-os-Santos ao Natal, perde a padeira o capital.
De Todos-os-Santos ao Natal, perde a padeira o natural.
De Todos-os-Santos até ao Natal, perde a padeira o cabedal.
aaa
vvvv
aaa
Depois dos Santos, neve nos campos.
Dia de Santo André, porcos pelo pé.
Dia de Santo André, quem não tem porco, mata a mulher.
Dia de São Martinho, castanhas e vinho.
aaa
rrrr
aaa
No dia de São Martinho, comem-se as castanhas e bebe-se o vinho.
Dia de São Martinho, lume, castanhas e vinho.
Dia de São Martinho, mata o teu porco e bebe o teu vinho.
Dia de São Martinho, prova o teu vinho.
aaa
llll
aa
Dia de São Martinho, vai à tua adega e prova o teu vinho.
Dos Santos ao Natal é bom chover e melhor nevar.
Dos Santos ao Natal, ou bem chover, ou bem nevar.
Em dia de Santo André, o tremoço não está, nem na saca nem no pé.
Em dia de Santo André, quem não tem porco que mate, amarra a mulher pelo p
é.
aaa
bbbb
aa
Em dia de São Martinho, semeia os teus alhos e prova o teu vinho.
Em dia de S.Martinho, vai à adega e prova o vinho.
Em dia de São Martinho, vai à adega, prova o teu vinho e faz um magustinho.
Em Novembro põe tudo a secar que pode o Sol não voltar.
Em Outubro, Novembro e Dezembro, abre o teu celeiro e o teu mealheiro.
aa
zzzz
aa
Em Outubro, Novembro e Dezembro, quem come do mar tem de jejuar.
Em S. Martinho, mata o teu porco, assa castanhas e prova o vinho.
Em S. Martinho tapa o teu portalzinho, ceva o teu porquinho e fura o pipinho.
No dia de Santo André diz o porco, quié-quié.
No dia de Santo André, pega o porco pelo pé; se ele disser quié-quié, diz-lhe que tempo é; se ele disser que tal-que-tal, guarda-o para o Natal.
aa
tttt
aa
No dia de Santo André, quem não tem porco, mata a mulher.
No dia de Santo André vai à esquina e traz o porco pelo pé.
No dia de São Martinho, lume, castanhas e vinho.
No dia de São Martinho, fecha a adega e prova o teu vinho.
No dia de São Martinho, fura o teu pipinho.
No dia de São Martinho, mata o porco e prova o teu vinho.
No dia de São Martinho, mata o porquinho, abre o pipinho, põe-te mal com o teu vizinho.
aa
dddd
aa
No dia de São Martinho, mata o porquinho, chega-te ao lume, assa castanhas e bebe o teu vinho.
No dia de São Martinho, vai à adega e prova o teu vinho.

sábado, 8 de novembro de 2008

BALADA DE OUTONO


Setembro …

Traz a balada de Outono

Que muda na folha as cores

Seduz e despe as flores

Num sestro de abandono...

Em toada persistente

As folhas , essas coitadas

Vão caindo lentamente

Das àrvores amarguradas

Ao ficarem desnudadas

De cada folha cadente...

Será que uma folha sente

Na despedida a tristeza ?…

Como dom da Natureza !…

E que em secreta amargura

Sofre, mas nunca se queixa

Como alguém que a Pátria deixa

Por destino ou desventura ?!…

E em cada folha caída

Resta uma angústia profunda

Num frágil sopro de vida

A sussurrar moribunda:

Não fez sentido viver

Esta tão curta existência…

Outono… Sem clemência

Tão cedo me fez morrer !…


Euclides Cavaco